sexta-feira, 8 de julho de 2016

ARTIGO: Coleção ou brincadeira?

               
                      Que colecionador nunca foi afrontado por alguém que o acusou de infantilidade? “Crianção”, “não teve infância”, ou “o que que você faz com esses bonequinhos? Brinca?” como eu mesmo tive que ouvir. Ou seja, é normal os alheios ao colecionismo, e às vezes até mesmo os colecionadores, não conseguirem discernir precisamente a diferença do apreço que um colecionador tem por um item do gosto que uma criança tem pelo brinquedo.


                Todo colecionador de hoje age de certa forma semelhantemente aos antiquários que surgem na Europa em fins do século XVI e início do XVII. Homens que nutriam gosto por objetos, coisas, interessantes. Não são tesouros propriamente ditos, coisas ricas como joias. As coleções dos antiquários eram compostas, como o nome propriamente diz, de coisas antigas, mas também coisas não tão “velhas” mas curiosas. Nobres recorriam a viajantes para ter acesso a itens indígenas, pequenos ídolos, animais empalhados, cocares etc. Tudo isso dentro de um catálogo, um tema, dando um caráter a coleção. Dessas coleções nascem os primeiros museus, cada um com seu tema, com uma característica, originando-se de grandes coleções.

                 Nesse sentido, o colecionador plasma seu fascínio por personagens, civilizações, histórias e ideais. Ele adquire uma série de objetos, itens colecionáveis, só que dentro de um padrão. Alguns colecionam selos, dentre estes há aqueles que colecionam apenas um tipo de selo. Há aqueles que colecionam discos, de vinil, de rock, dos anos 1970, da Europa, para exemplificarmos o preciosismo do colecionador.
 
           E nós amigos, colecionamos brinquedos. Não como uma criança, mas com temas, escalas definidas, representando ideais e concepções ideológicas. Um colecionador dito “sério” possui tema e escolhas. Não acumula, não junta tudo num canto, ele cataloga, classifica, separa, organiza. Daí as escalas e temas, histórias e todos os demais aspectos que definem um tipo de coleção.

       Colecionadores podem sim comprar de tudo, mas sempre o fazem seguindo certos rigores. Eles não tendem a misturar as coisas, expõem suas coleções segundo temas, classes, escalas, histórias etc. Ou seja, é uma atividade adulta e controlada, mesmo que não pareça aos olhos alheios. Ele elabora sua coleção, planeja e prioriza suas compras (a não ser que o caboclo seja muito rico, aí ele compra tudo o que ver pela frente e ponto final).


       Segundo o pediatra Daniel Becker a criança não faz tal controle da brincadeira ou dos brinquedos. Ela sonha, cria universos e pouco se importa com os valores adultos. Ela não se preocupada com arranhões, batidas, partes perdidas, ela quer brincar. Diferentemente do colecionador, a brincadeira da criança não é controlada. 

         Escala, qual o quê, a criança combina seus brinquedos no seu universo particular, criando um mundo de infinitas possibilidades. As vezes a criança pretere o brinquedo por outros objetos que nada teriam a ver com suas ambições lúdicas, ela só quer se divertir. Um fruto, um graveto, talher de cozinha, uma ferramenta, um boneco se rosto, um carrinho velho, qualquer coisa cabe no baú, ou caixa, ou sacola de brinquedos de um menino ou menina. Isso em nada tem a ver com o que faz um colecionador.

        É por isso que nós colecionadores temos poucos itens de nossa infância, pois brincamos com eles. Poucos sobreviveram, e praticamente nenhum sem “sequelas” da imaginação fértil. Brinquedos danificados e mentes saudáveis são algumas das características de um adulto são. Alguns desses adultos passam a nutrir apreço por esportes, carros, consumos como charutos, bebidas, por vestuário e etc. Já, nós amigos, somos aqueles que escolheram ocupar suas mentes e alimentar seus sonhos com personagens de quadrinhos, filmes, desenhos animados.

            Por isso somos colecionadores, com algo de menino, ou menina é verdade, mas infelizmente sem a suavidade e alegria infantil. Para bem ou para mal, felicidade ou tristeza fato é que o colecionador comumente não brinca como uma criança, ele segue regras e princípios que transformaram seu baú de brinquedos em estante de hobbie.

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